O Vigésimo Passageiro

 

 

    Minha jornada de trabalho já havia se iniciado às 14 horas da tarde daquele sábado de Janeiro, e se estenderia por aproximadamente 12 horas, finalizando às 3 horas da madrugada de domingo, por obrigação e pelo inevitável esforço da disciplina.

    Entre um café e outro, o movimento infinito da rodovia e o entra e sai interminável dos passageiros, surgiam alguns pensamentos na mente já cansada, mas nenhum se fixava, não se sabe se pela falta de importância ou pela economia de energia, tão importante para a execução do trabalho.

    Aproximadamente às 19 horas da tarde, horário em que o calor dava trégua e o sol cedia espaço para a escuridão da noite, um gole no café foi interrompido pelo toque de mais uma chamada, provavelmente o que viria a ser o vigésimo passageiro, cuja singularidade se misturava às diversas chamadas tediosas do dia.

    Como de praxe, analisei o valor pago, calculando a quilometragem que deveria ser percorrida, e também o tempo de deslocamento. Considerando vantajosa, aceitei e me dirigi ao local, totalmente desconhecido para mim, que conhecia o bairro apenas pelo nome: Sítio Cercado.

    O passageiro, de nome Gabriel, como tantos outros aguardava no local de embarque, e até lá me dirigi.

    Faltando apenas 100 metros localizei o endereço, quando para minha surpresa o local era um cemitério ermo localizado às margens da rodovia, e não havia qualquer sinal de habitação humana nas redondezas.

    Contrariando o instinto parei o carro em frente ao portão, debaixo de um crucifixo enorme de concreto com 4 metros de altura, sem ignorar a palpitação que se iniciava impulsionada pela ansiedade e temor que o cenário despertou.

    Enquanto aguardava o passageiro Gabriel, pude ver o portão trancado com corrente e cadeado, e passei a duvidar daquele cenário que mais parecia um enredo criado por Stephen King.

    Gabriel então apareceu, entrou no carro e sem dizer uma palavra fechou a porta, abriu a janela, e suspirou: bora.

    Gabriel era ruivo, com a pele clara até mesmo um pouco pálida, talvez tivesse albinismo, e de soslaio pude observar que mancava. Vestia uma blusa quadriculada em vermelho e preto, mais vermelho que preto, bermuda jeans clara e sandália de couro marrom.

    Iniciei a corrida, e o destino indicava uma capela do bairro, cujo nome não recordo. Após 10 minutos de viagem lá chegamos, e dentre alguns carros e pessoas chorando estacionei para que Gabriel descesse. Encerrei a corrida e assisti Gabriel indo de encontro a um caixão, com passos de pesar.

    Impossível passar irretocável por um velório, mas precisava seguir. Dei 5 estrelas para o passageiro e aceitei a corrida seguinte. Por um acaso meus olhos se voltaram novamente para a entrada e visualizei entre as coroas de flores a foto do defunto: para meu espanto, era Gabriel, com as mesmas roupas que o vi.

    Ali tudo fez sentido, pois Gabriel, resignado com sua partida, foi se despedir - talvez de si mesmo - antes de embarcar para a sua próxima e última viagem: o além.

    E assim, Gabriel deixou de ser mais um passageiro de uma viagem de sábado, e entre os mistérios que habitam o mundo dos vivos e dos mortos, talvez sequer tenha existido, podendo ser fruto da imaginação cansada de um motorista de aplicativo.

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